domingo, 7 de maio de 2017

Dimensões.Br - Memória, Brasil e Fantasia


Me peguei com o livro de contos Dimensões.Br: contos de literatura fantástica no Brasil publicado pela Andross Editora e organizado por Helena Gomes, esse livro é uma experiência, porque é muito conto diferente um do outro.

Tenho planos de escrever um pouco sobre alguns contos, mas não agora. Aqui o foco será o prefácio.




O texto escrito por Roberto de Sousa Causo e intitulado de "Um Brasil Fantástico" faz uma espécie de panorâmica do país em relação à fantasia. Há citações de vários livros (anotei todas) desde de A Luneta Mágica do Joaquim Manoel de Macedo (aquele lá d'A moreninha) até André Vianco, Giulia Moon, Carlos Orsi, Mariana Albuquerque etc. 

O livro foi publicado em 2009. E é curioso ler essa discussão desse período, que é mais perto do "boom" da fantasia no Brasil. Ah! Eu esqueci de levantar a ficha do Roberto de Sousa Causo... O cara é escritor e pesquisador de ficção científica e fantasia; escreveu histórias como Terra Verde, com alienígenas na Amazônia, Selva Brasil, que conta sobre um Brasil alternativo, Um Herói para Afrodite, este um conto de terror, e várias outras histórias. 

Pois bem... vamos para o que chamou minha atenção neste prefácio dele:


"Mas quando tentamos nos lembrar do passado, especialmente em comparação com a cultura popular inglesa ou americana, a impressão que chega é a de que o principal produto da cultura brasileira é o esquecimento. Temos pioneiros, que não são lembrados; temos soluções próprias, mas não são conhecidas. Cada novo sucesso internacional redefine nossos paradigmas e desperta aquela nossa velha coceira de imitar."

Página 17


Nossa cultura é a do esquecimento... Pirei com essa ideia.

E realmente se olharmos para trás não percebemos o monte de autores que escreveram textos de cunho fantástico, temos o diabo em Guimarães Rosa, o Brás Cubas (um espírito) do Machado de Assis, o Álvares de Azevedo nem preciso falar, lembro até de ler sobre lobisomens em algum livro do Graciliano Ramos.

Se duvidar desde do início do Brasil escrevemos fantasia, mas classificamos com outro nome porque parece que pôr "literatura fantástica" é colocar a obra abaixo da merda. É uma sub-literatura. Aí fiquei pensando: agora temos tantos escritores do gênero, mas corre o risco de daqui a 50 anos um brasileiro olhar para trás e falar "Hmm não tinha, né?. A gente nunca teve um livro de fantasia escrito por um brasileiro. Nenhum movimento de fantasia. O Brasil é um lixo atrasado mesmo, só agora que estamos fazendo algo do tipo." Igual pensamos hoje.    

Outro ponto de discussão é o negócio de imitar e tentar agradar:


"Frequentemente evitamos abordar nosso atraso social e o que é tipicamente brasileiro, temendo reforçar os estereótipos culturais com os quais os países desenvolvidos supostamente nos enxergam. Mas por um lado, literatura não é propaganda - sua função mais nobre está mais perto da crítica do que do enaltecimento. (...)

Por outro lado, deixar que aquilo que imaginamos que seja a visão que o estrangeiro tem de nós dite o que devemos escrever é triste evidência de subserviência intelectual."

Página 21

Isso só me lembra aquela história do "complexo de vira-lata" do brasileiro. Parece que tudo o que vem de fora é melhor, toda história que ocorre lá fora é melhor também... E quando a nossa brasilidade aparece numa história ela é meio estereotipada... que nem a gente se identifica. 

 O legal é que esses pensamentos coincidiram bem na época em que tô lendo O Planeta dos Macacos (aqui), que trata também dessa ideia de imitação. O livro faz um paralelo entre a civilização e a rotina, esses atos repetidos, condicionados, imitados de forma geral. "Mas quando um livro original é escrito (...) os homens de letras o imitam, isto é, o copiam, de maneira que são publicadas centenas de milhares de obras tratando exatamente dos mesmos temas, com títulos um pouco diferentes e combinações de frases modificadas." (páginas 141/142). Esta foi uma citação d'O Planeta dos Macacos, um livro de 1963. 63! 

Com tudo isso na mente, o prefácio do Roberto de Sousa Causo termina nos lançando para os 55 contos de fantasia, terror, ficção científica, folclore etc. de mais de 50 autores brasileiros diferentes. Esse é um ponto de esperança legal para terminar esse texto, mas espero que não encerre a discussão por aqui. ^^

Era isso.  



sábado, 6 de maio de 2017

O Planeta dos Macacos - "livros me mordam"


Então eu li... O Planeta dos Macacos do autor francês Pierre Boulle

Das adaptações para o cinema eu só assisti a do Tim Burton (amei o plot twist do final - me julguem), e a nova trilogia, que é muito foda! (o último filme sai neste ano, 2017), meio que deste amor pelos novos filmes surgiu a vontade de ler a obra de 1963 que iniciou esse "planeta". 



Recebi o primeiro tapa do livro logo no início. Eu tava lendo no automático: isso é isso, aquilo é aquilo e ponto. Aí tive uma noção de o quanto estamos acostumado a algo, realmente estamos condicionados a pensar de uma forma, "isso é óbvio, isso outro é lógico", é como se fosse um padrão ou um caminho único que devêssemos seguir.

Não sei se vocês já se questionaram do porquê de em um livro se um personagem é negro o escritor precisa falar "ele é negro", parece que ele ficaria branco para o leitor até segunda ordem. Por quê? N'O Planeta dos Macacos (apesar do título '-'), me deixei enganar nas primeiras folhas, interpretei ali como eu queria, ou conforme o padrão me impunha a interpretar, aí veio o autor de forma sútil "não é bem assim não, garoto".

Esse questionamento me lembrou agora o discurso da Chimamanda sobre os perigos de uma única história. Parece que as histórias só possuem um tipo de agentes, uma única maneira de acontecer, uma única consequência, um padrão que nivela tudo e a todos. Mas, não é bem assim. O Planeta dos Macacos vem dá um drible no ego humano. 

Ah, preciso de uma pausa. 



Quando chegamos ao planeta os personagens já o chamam de  Planeta Soror. Não vi uma explicação para o nome "Soror" no livro, não que eu me lembre... Então fui loucamente pesquisar o que queria dizer. Descobri que "Soror" em latim é irmã, ou seja, seria o Planeta Irmã, achei esse masculino e feminino estranho e fui ver como ficava no original: em francês planeta é um substantivo feminino... La Planète. Aí as coisas fizeram sentido. Enfim... a pausa era só pra isso mesmo, podemos voltar.
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