segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Uns contos do Rubem Fonseca (Feliz Ano Novo)



"É  tão fácil matar uma ou duas pessoas. Principalmente se você não tem motivo para isso."

Página 159


 Feliz Ano Novo é um livro de 15 contos publicado e censurado na década de 70, de acordo com a contracapa: "sob alegação de 'exteriorizar matéria contrária à moral e aos bons costumes'". O Brasil atual ainda se vê bastante nessas páginas e até nega isso.

Mas aqui não vim falar de todos os contos, só dos meus preferidos:

Um Passeio Noturno

A pegada do Rubem Fonseca é bem urbana e violenta. Nesse conto o tema é o stress, é basicamente sobre como um homem faz para relaxar ao chegar em casa depois de um dia de trabalho. Lá está a família (a esposa, a filha, o filho), os problemas o acompanhando, então ele resolve sair de carro toda noite para um passeio.

É o tipo de conto que pode te deixar um pouco paranoico de andar na rua... se é que já não está... não é mesmo? Por mais que conheça uma pessoa, você não sabe o que ela pode fazer; estamos em um estado de alerta eterno, pode ser perigoso parar num sinal à noite, ou passar por uma determinada rua, ou mesmo dar carona.
   


O outro

Estamos na pele de um executivo, que pelo excesso de trabalho tá com a saúde na merda, à beira de um enfarte; para relaxar um pouco um médico manda ele fazer caminhadas. Porém, um problema maior se forma quando surge um sujeito pedindo esmola. Quase todos os dias esse estranho tá lá na calçada, no meio do caminho espreitando.


"No dia seguinte, na hora do almoço, quando fui dar a caminhada receitada pelo médico, o mesmo sujeito da véspera me fez parar pedindo dinheiro. Era um homem branco, forte, de cabelos castanhos compridos. Dei a ele algum dinheiro e prossegui."

Página 88

Isso se repete, o cara começa a se sentir perseguido, não adianta mudar a rota, ou correr, ou mesmo parar de trabalhar e ficar em casa... uma hora ou outra vai ser obrigado a sair e o sujeito pode estar lá fora esperando.  

O medo cresce no ritmo do "barulho de saltos de sapatos batendo na calçada como se alguém estivesse correndo atrás de mim" (página 89). O outro é insistente e ameaçador. 

Não vou escrever mais nada aqui sobre esse conto porque ele muito curto, tem 4 páginas na minha edição que é da Companhia das Letras, e qualquer spoiler pode sair sem querer. ; ) 


74 degraus

Agora, sim, o meu conto favorito.


À primeira vista é um texto confuso, e por isso que tem meu amor. Eu li umas três páginas dele e fiquei: "não tô entendendo nada". Voltei pro começo e me perdi logo no segundo degrau. 'Reiniciei de novo' a leitura, só aí que entendi como funcionava o conto, foi um belíssimo 'mind-blowing'.  




Aí 'reiniciei de novo novamente' o conto. 


Conhecemos Tereza, uma mulher entediada com a vida numa casa cheia de quadros e estátuas de cavalos, e cujo marido sofreu um acidente ao cavalgar ficando tetraplégico.



Então vão chegando algumas visitas. Uma amiga com um embrulho nas mãos. Um rapaz que conhece o marido de Tereza. Ah! Mas o melhor do conto não é exatamente a história e sim como ela é contada. "Como assim?" Isso pode ser considerado um spoiler... (CUIDADO!) no entanto, preciso compartilhar isso: praticamente cada mudança de parágrafo muda junto a perspectiva de quem tá narrando a história.



O conto é em primeira pessoa e vai alternando entre a Tereza, a amiga, o rapaz etc. e é uma mudança brusca, você estranha logo de cara, entretanto, o autor não avisa que as coisas mudaram e por isso o leitor tem que prestar atenção na leitura e lembrar dessa brincadeira até o final. Esse recurso narrativo vai criando uma tensão além de deixar o conto em algumas partes com um ritmo acelerado, indo da mente de um personagem para a de outro. S2



"Chamei os melhores médicos, os melhores, do Rio e de São Paulo, mas a medula havia sido rompida bem em cima, ele não podia nem falar nem se mexer, respondia piscando os olhos, estava consciente, mas não conseguia fazer nenhum movimento, nem respirar, o ar era injetado nos pulmões por um tubo enfiado na traqueia.

Coitado."
Página 150


É isso. 'Té mais. 



P.S.: Pensei em falar aqui sobre o conto que dá nome ao livro "Feliz Ano Novo", mas como ele trata de várias coisas, ele merece ser discutido num texto separado... que pode demorar a aparecer.


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