domingo, 5 de fevereiro de 2017

"Cegos que, vendo, não vêem." - Saramago


"Depois, como se acabasse de descobrir algo que estivesse obrigado a saber desde muito antes, murmurou, triste, É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade."

Página 40

E se agora do nada antes de terminar de ler esse texto você ficasse cego, não uma cegueira comum, mas uma cegueira branca, e o pior: uma cegueira contagiosa?

Este é o ponto de partida do livro do Saramago, este português conhecido por usar a pontuação de forma única. Isso é até algo bom de esclarecer logo de início, tem gente que afirma que o Saramago não usa pontuação... ele usa sim, e usa é muito a vírgula. Muito mesmo. O que ele não usa é o travessão, pelo menos em alguns de seus livros. "Então as falas são marcadas com aspas?" Não. As falas ficam dentro do parágrafo e o começo delas é marcado por uma letra maiúscula. "Oi?" Pois é.

Certo. Voltando à história. As pessoas atingidas por essa cegueira branca começam a entrar em pânico. Os médicos não sabem o que está a causar esse fenômeno. O jeito é pôr todos os 'infectados' em uma espécie de quarentena até se descobrir o que fazer.   

Como há o risco de contágio, nenhuma autoridade quer colocar ali dentro uma pessoa que ainda enxerga para cuidar e organizar as pessoas. Tá tudo liberado \o/ Então, soltamos o caos que guardamos dentro de nós, e as pessoas revelam a verdadeira face, não é necessário mais manter as aparências.   



Podemos classificar a história como "apocalíptica", já que durante o livro várias estruturas sociais da atualidade são posta à baixo. Ao longo da narrativa vemos muita degradação, tanto em pequena escala como em grande escala.

O livro não é preso a algumas e simples consequências da cegueira branca, ele vai muito além e é muito abrangente em analisar a humanidade. Poderia dizer até que é bem completo nesse sentido. Temos cenas sobre religião, sobre justiça, sobre pessoas se matando por comida, sobre moral etc.

"Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem."

Página 310



Como não poderia faltar num texto sobre Ensaio sobre a cegueira vamos cair na discussão da "cegueira moral". Juro que vou ser breve. Como está na epígrafe do livro: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.", acabamos ignorando muitas das coisas à nossa volta... muitas pessoas também. Um parte do mundo passa por nossos olhos como se fossemos cegos. Ignoramos.

Rum bora cantar? "Look down and see the beggars at your feet/Look down and show some mercy if you can" (olha para baixo e veja os pedintes a seus pés/olhe para baixo e mostre um pouco de misericórdia se puder). Ó Os Miseráveis aí gente. Olha o Gavroche dando na nossa cara. Não consegui não fazer a relação, desculpa aí.



Não encontrei essa parte com legendas em português... '-' 

Voltando. Vale dizer também que o Ensaio sobre a cegueira não é dividido em capítulos, e alguns parágrafos são enormes, coisa de mais de uma folha ^^

Sintam-se avisados. Ah! Tem o filme também, que é muito bom, porque quando a adaptação faz o escritor chorar de felicidade a gente senta e assisti.

Então é isso, grifos. 'Té mais.

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