sábado, 24 de setembro de 2016

Tortura, Ditadura Militar e Piauí - Os que bebem como cães




O que dizer de um livro que na primeira frase você já percebe que o bagulho vai ser louco? "A escuridão é ampla e envolvente". 

Desabafo on 

Como a maioria dos livros de autores piauienses eu tive uma certa dificuldade em comprar, porque acho caro (ponto!). Minha edição consegui pela Estante Virtual e é tão velha que não sei nem o ano, sério, não achei uma data certa, vi um 1975, mas fiquei na dúvida se seria ou não...

Enfim, me desculpe quem quer que seja, mas R$ 45,00 num livro de mais ou menos 170 páginas é meio difícil de lidar.

Desabafo off

Somos jogados logo de cara num quarto escuro de chão batido, mãos algemadas pelas costas, rosto na terra, sem água, sem comida. Os sons das botas vindo te buscar. Esse início só me lembrou o conto do Poe o Poço e o Pêndulo, que se passa na Inquisição Espanhola, de uma pessoa procurando a saída, uma porta, uma abertura qualquer num quarto escuro, parece haver nada mais ao redor a não ser a escuridão, mas... como ele entrou então? Estamos na Cela.

Detalhe da capa da Editora Renoir

De lá somos amordaçados, pois "Os guardas têm medo de nossas queixas ou de nossas próprias vozes" (página 12), somos arrastados para um lugar onde podemos nos lavar e ao mesmo tempo beber. O estômago vazio, agora cheio apenas de água. Estamos no Pátio.

Então, olhando para os outros percebe que não lembra de quem é, seu passado, o porquê de estar ali. O que fizera? Tenta gritar por alguém, mas por quem? Um vazio na memória... O que acontecera? Os outros gritam por suas mães, por suas esposas. Elas têm vários nomes... E esse é o Grito.

Assim segue o livro: na repetição da essência desses três capítulo (A cela, O pátio, O grito, A cela, O pátio, O grito, A cela, O pátio, O grito). A rotina da cadeia. As torturas. As drogas. A solidão.



Agora preciso falar sobre a escrita do cara, o narrador d'Os que bebem como cães é instável, "Como assim?". O Assis Brasil passa da 3ª pessoa pra 1ª de um parágrafo pro outro, ou mesmo dentro do próprio parágrafo com uma sutileza tão grande. Olhando o personagem de longe, olhando como ele, nos pensamentos dele, novamente à distância a olhar para o homem algemado no chão.


"Caminhou e ajoelhou-se próximo ao prato, como antes fizera dezenas de vezes. Já sabia como se abaixar e sorver o líquido sem derramar pelos lados ou se engasgar. Sem sujar sua roupa branca da primeira comunhão. Sorriu. Sou uma criança que aprende a se alimentar sozinha. Ou apenas um cão hábil e domesticado agora - sorriu (...)."

Página 81

Penúltimo ponto: o ambiente é muito fechado dá uma angústia no leitor, pelo menos em mim, e não tô falando "fechado" só no sentido de o personagem estar preso, mas sim que o cenário, as personagens, os objetos pra se interagir nas cenas são restritos. As pessoas não tem rosto. Nome, história, tudo esquecido. Na cela é apenas as paredes, a refeição, ratos e o chão obviamente e de vez em quando uma goteira. E ainda assim com tão pouco o autor conseguiu gerar tensão com um prato de comida, com um mero fucking prato de comida. Como pode? Sério, incrível isso.

Sobre a Ditadura... o livro não deixa muito claro o que está acontecendo fora dessa prisão. Mas... tendo em mente que o livro foi escrito na década de 70, então, é só ligar os pontos que dá pra fazer uma interpretação nesse sentido, no caso, com a Ditadura Militar no Brasil, no entanto, bem poderia servir pra quase qualquer outra ditadura, infelizmente.



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