sábado, 25 de junho de 2016

Ninfomaníaca, cultura do estupro e outras coisas


Em 2013, no Brasil em 2014, saiu o filme Ninfomaníaca do Lars Von Trier...  Não, não vim fazer uma crítica sobre o filme. Considere isso apenas como uma conversa. Vamos lá.

 Vi muitos comentários detonando o filme, dizendo que não passa de uma pornografia de mal gosto, e coisas piores. Como também tiveram notícias de pessoas desmaiando no cinema (aqui), que pode ter um pouco de sensacionalismo, não sei. 

Mas, quem é a ninfomaníaca do título do filme? A protagonista? Ela é a pervertida? A escoria? Devassa?! O problema é que ela não faz isso sozinha. "Sexo é dois." A sociedade tem esse hábito de culpar a mulher por fazer sexo. Pra mim, o filme ficou gritando que ninfomaníaca não era só "aquela mulher", mas toda sociedade, mesmo esta recusando isso, mesmo sentindo até nojo.


Nojo? Como assim? É só reparar nos palavrões, por exemplo; a maioria deles são relacionados ao sexo, e de uma maneira pejorativa. E tem até aquelas pessoas que evitam falar essas palavras, mesmo sem deixar de xingar, claro. O problema não é o sentimento do palavrão em si, é só as palavras que lembram sexo que não pode.

Tudo bem mandar a pessoa ir "tomar água no canequinho!", ou levar uma topada e dizer "Caramelo!". Uma das piores coisas pra mim é o "piiiiii" da censura quando alguém fala um palavrão na TV num horário não permitido, é pior que qualquer palavrão. Mas, tudo bem. Fomos poupados... No entanto, e de nós mesmos? 

"- Não é a ocasião que faz o ladrão - dizia ele a alguém -; o provérbio está errado. A forma exata deve ser esta: 'A ocasião faz o furto; o ladrão nasce feito'."

Esaú e Jacó, Machado de Assis

Somos animais feitos de instintos, somos seres sociais feitos pelos outros para acreditarmos que somos completamente diferentes dos bichos. Como lidar? Como lidar com esses sentimentos ambivalentes!  Que toscamente é: você desejar algo, sentir-se culpado por isso porque "esse algo" não é socialmente aceito, e no fim você finge pra si que não deseja "esse algo", só que deseja. Hã?

Um exemplo disso é a expressão "cultura do estupro". Tô só esperando alguém levantar a mão e falar: "não tem como existir uma 'cultura do estupro' num país onde até os bandidos condenam essa prática, porque quando um estuprador chega na cadeia ele é feito de 'putinha' dos outros". Pois bem... 

"Se alguém chegou a satisfazer o desejo reprimido, em todos os membros da comunidade se animará esse desejo; para sofrear essa tentação, o infrator invejado tem que ser despojado do fruto de sua ousadia, e não raramente a punição dá aos seus executores a oportunidade de, sob a justificativa da expiação, perpetrar o mesmo ultraje por sua vez. Este é, afinal, um dos fundamentos do sistema de punição humano, e tem por pressuposto - corretamente, sem dúvida - que os mesmos impulsos proibidos se acham tanto no infrator como na comunidade que se vinga."

Totem e Tabu, Sigmund Freud

Tá certo que essa foi a única obra que li dele. Tá certo que, na verdade, ao que parece algumas teorias dele caíram. Tá certo que o Freud não é a pessoa mais indicada pra se citar sobre esse tema.  Enfim, isso era só pra lembrar que quem estupra um estuprador seria o quê? (Isso poderia virar um trava-língua). Coletivamente encorajamos e repudiamos. Passamos a mão na cabeça e repreendemos.

Era isso. 'Té mais.

3 comentários:

  1. Achei o filme muito interessante e concordo com você!

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    1. Realmente o filme é muito interessante. E daria para falar sobre inúmeras outras coisas, sobre alienação parental, por exemplo, na cena que a esposa (Uma Thurman) leva os filhos para conhecer a cama onde o pai e a amante se relacionam, a maneira como ela usa as crianças para atacar o marido. Enfim... Obrigado pelo comentário.

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  2. Achei o filme muito interessante e concordo com você!

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