terça-feira, 28 de abril de 2015

Resenha: O torreão, Jennifer Egan

O que elas, as máquinas, estão dando para você? Sombras, vozes desencarnadas. Palavras digitadas e imagens, se você estiver conectado. Só isso, Danny. Se você acha que está rodeado de gente, você está inventando todas essas pessoas.
( Página 128)

Jennifer Egan:

Jennifer cresceu em São Francisco, mas nasceu em 1962 em Chicago. Seus livros são bem elogiados pela crítica, tanto que ganhou o Pulitzer de Ficção 2011, além de vencer e ter sido indicada a outros prêmios... "Jennifer Egan é uma romancista impossível de classificar" (The New York Times Book Review).


Leitura de orelha

O personagem que inicialmente seguimos se chama Danny, que é convidado por um primo para o ajudar a transformar um castelo em um hotel de luxo, em uma espécie de retiro sem tecnologia, porém com medo de ficar sem contato com sua vida em Nova York, ele leva uma antena parabólica. E qual é o sentido dessa viagem afinal? Humm...


LIVRE! Finalmente livre...?

“O torreão é a parte mais alta e mais forte do castelo, para onde todos fugiam quando os muros eram rompidos. Este torreão não se rendeu durante novecentos anos e você agora vem me perguntar por que eles não me retiraram daqui?”

(Página 89)

Você compra um castelo e ganha de brinde sua própria baronesa (parabéns!), porque ela se recusa a sair, e se tranca no torreão, à beira do isolamento. Mas é quando essa personagem, a baronesa, aparece realmente que temos uma visão melhor do painel de estranheza entre passado e progresso, que vem germinando desde o começo, somando-se aos questionamentos sobre a tecnologia e a humanidade (que ao que parece a autora gosta bastante).

Além disso, ainda tem o simbolismo do torreão em si: um último refúgio; vemos a tentativa de conviver com o passado, de o resgatar, achar um equilíbrio, o homem se perdendo diante do passar do tempo... e as cenas no castelo são intercaladas com algumas que passam  onde o tempo é roubado do homem: a prisão; o que me levantou a possibilidade de O torreão estar falando sobre a humanidade estar presa (de várias formas), seja no alto de uma torre agarrada ao passado, ou presa à tecnologia, buscando por um sinal de telefone, ou presa ao futuro, à expectativa de que algo grande vai acontecer, ou ainda à aceitação, ao costume que chega ao ponto de você estar fisicamente livre e não conseguir abrir uma porta...


"Mas a loucura é que ela está certa. Na última vez em que fiquei em liberdade, eu ficava parado na frente das portas e esperava que elas se abrissem. A gente esquece como é abrir uma porta sozinho."
(Página 26)


Cadê o travessão?

“Um romance experimental envolto em veludo gótico” (The Seattle Times).

Não sei o que a autora queria, se era experimentar um jeito diferente de narração e se provar (talvez) ou deixar claro que ela estava contando histórias diferentes (...)  ou algo (alguma mensagem?) que não consegui alcançar ou tudo isso ou nada disso... Porque ela começa sem os travessões para marcar as falas, são quase diálogos em forma de teatro: nome e dois pontos, parênteses e marcação de ação como: (com voz abafada), (após um longo intervalo). O que me deu a impressão de que aquelas personagem seriam falsas, que estariam representando algo; aqui está outra coisa discutida no livro: a realidade; o que seria real? A história contada? As lembranças? A voz da autora por trás de um narrador com sua própria vida? É paranoia? É realidade?

Mas deixa voltar um pouco, aí em cima eu falei “histórias diferentes”, pois é... o livro tem mais ou menos três, cada uma com uma forma um pouco própria de ser narrada: uma como disse é meio por linguagem de teatro, a outra quase não tem marcação de falas, e por último aparecem os travessões. Falando dessa forma parece até que tô é criticando, não! Essa brincadeira da autora foi uma das melhores coisas do livro... incluo aqui o narrador intrometido/personagem.


Mas O torreão teve (para mim) seus altos e baixos, sim. E de novo me vem a mente a coisa de “um romance experimental”, ainda não sei se nisso se encaixa o estilo da Jennifer Egan, porque em alguns momentos tive a impressão de que ela estava forçando e/ou testando outro estilo de contar histórias, quase que fingindo ser outra pessoa (uma vez que o narrador se chama Ray e é um... seria spoiler dizer o que ele é?), o que me deu vontade de tirar a prova e ler mais alguma coisa dela como A Visita Cruel do Tempo, que o título é incrível.

Outra queda, em minha opinião, foi por causa de o livro falar de vários assuntos, mas apenas tocar neles... começa e não desenvolve, não fecha a ideia, parecia que largava uma para começar a falar de outra; tive essa impressão enquanto estava lendo... mas isso pode ser simples implicância por minha expectativa pra essa leitura ter sido alta... culpa de dona Tatiany Leite (Cabine Literária)... vou deixar o link para o vídeo dela aqui: Atualizaçãodo Whatsapp, tecnologia e prisão | Literatudo



Ficha Técnica

Título: O torreão

Autora: Jennifer Egan

Tradução: Rubens Figueiredo

Ano: 2012 (1ª edição)

Editora: Intrínseca

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