terça-feira, 17 de março de 2015

Resenha: O Rei de Amarelo, Robert W. Chambers


“Carcosa, onde estrelas negras pendem dos céus; onde as sombras dos pensamentos dos homens se alongam ao entardecer, quando os sóis gêmeos mergulham no lago de Hali.”
(pág. 22)

Do livro

    O Rei de Amarelo é, sem dúvidas, o mais alto estágio da arte que a humanidade ousou chegar. É uma peça de teatro dividida em dois atos; a inocência das situações do primeiro contrasta com o segundo ato de uma maneira que... NADA, nada iria preparar alguém para o que estava por vir... A banalidade das primeiras páginas apenas amplifica o terror do desfecho.
    O horror contido no livro foi tão grande para a época que levou o governo francês a confiscar os exemplares que começavam a circular pelo país, além de ser condenado pela imprensa e pelas religiões, censurado e tratado como livro maldito que poderia causar danos psicológicos aos leitores. Porém, essa é uma peça fictícia que aparece n'O Rei de Amarelo de Chambers. =D



Brooklyn, 1865

Robert William Chambers (1865 ~ 1933) nasceu nos Estados Unidos (no Brooklyn), estudou artes em Paris, foi pintor, ilustrador e uma espécie de Nicholas Sparks da época... “o maior sucesso veio de uma série de romances água com açúcar”.

Leitura de orelha

O Rei de Amarelo de Chambers é uma coletânea de 10 contos, sendo os 4 primeiros com um tom mais pesado e fantástico e com referências diretas ao Rei (a peça, que leva os leitores à insanidade); depois vêm 2 contos que são considerados de transição para a segunda parte mais realista e romântica, que é formada pelos 4 últimos contos.
Vi algumas pessoas dizendo que só gostaram dos primeiros, que o resto não deveria estar no livro de tão chatos ou longe da temática... Mas eu gostei do livro como um todo, só que realmente os outros não se comparam aos primeiros. Aqui vai quase nada na verdade de cada conto, só os títulos:
       O reparador de reputações
       A máscara
       No pátio do Dragão
       O Emblema Amarelo
       A Demoiselle d’Ys
       O paraíso do profeta
       A rua dos Quatro Ventos
       A rua da primeira bomba
       A rua de Nossa Senhora dos Campos
       Rue Barrée

Sylvia, Sylvia, Sylvia

Até agora, não sei se as histórias se interligam realmente, se participam do mesmo universo, ou se são versões de realidades alternativas (Nossa!), e as notas me perturbaram ainda mais, longe de elas serem ruins, as notas do livro ao fim de cada capítulo são excelentes, chamam atenção para detalhes interessantes, possíveis ligações entre os contos, as mais variadas teorias sobre a narrativa do Rei de Amarelo (do Chambers), além de dar alguns fatos históricos que contribuem para o entendimento.
Uma coisa que da base a essas teorias é que as histórias têm elementos semelhantes: vários artistas (pintores, escultores), alguns acontecimentos citados em um que ocorrem em outro (isso é fantástico para mim), nomes que se repetem, o próprio livro O Rei de Amarelo (a peça), e o excesso de Sylvias (puta que pariu), acho que foram uns três contos que tiveram uma personagem com esse nome.

 “A esperança gritava: ‘Não!’ Por três anos eu escutei a voz da esperança, e por três anos esperei ouvir um passo à minha porta. Será que Sylvia tinha esquecido? ‘Não!’, gritava a esperança.”
(Pág. 101)

Utopia, distopia, loucura

O Reparador de Reputação... esse 1º conto já me arrebatou; nele é contada a história de Hildred Castaigne, que se envolve com um homem estranho cujo trabalho é reparar a reputação (olha o título '-') das pessoas pelo mundo.
Mas, o que mais chamou minha atenção foi a pegada futurista dele; foi difícil na leitura acreditar que o livro tinha sido publicado em 1895, ele é quase profético: os EUA que tinha tido uma guerra com a Alemanha, e, também, algo que deixou a Guerra Fria na minha mente.

"os Estados Unidos contemplavam com tristeza e impotência a Alemanha, a Itália, a Espanha e a Bélgica sofrerem com as desgraças da anarquia, enquanto a Rússia, que assistia a tudo do Cáucaso, envolvia-as e capturava uma por uma"
(pág. 21)

Como o conto é em 1º pessoa, ficamos presos à visão de mundo do narrador, e para ele esse futuro são “mil anos de paz e felicidade”, onde o país prospera, cidades renovam sua arquitetura e vivem uma efervescência cultural, tudo é muito certo, perfeito, para Hildred, ele vive em uma utopia.
Mas, toda essa ideia maravilhosa dá de cara com o fato de que os Estados Unidos havia expulsado os negros e os judeus de seu território; e que era um governo extremamente militarizado, além de que foram abertas em várias cidades Câmaras Letais, para o povo se matar, porque a demanda tava muito grande (sensacional), e com isso a ideia de utopia se esfarela dando lugar a uma ideia de futuro de merda (distopia para os íntimos).
Para piorar há o fato de o narrador ter acabado de passar por um tratamento de insanidade. Agora a loucura entra em cena fazendo a realidade se curvar, deixando instável tudo em volta. E se esse futuro for apenas um delírio. Utopia? Distopia? Loucura mesmo? Só sei que é genial...

Ficha técnica

Título: O Rei de Amarelo

Autor: Robert W. Chambers

Tradutor: Edmundo Barreiros (com revisão comentada de Carlos Orsi)

Ano: 2014 (1ª edição)

Editora: Intrínseca


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